SAÚDE MENTAL: como nossa cidade cuida desta questão?

texto escrito por Luana Góes Peres, psicóloga

Se você estuda, trabalha e precisa lidar com as obrigações que a vida traz, provavelmente já se questionou sobre sua saúde mental e lamentou sua condição nos últimos meses. Por sorte, e por uma necessidade urgente que nos foi lançada diante da pandemia, temos falado mais abertamente sobre esse mal que nos aflige de forma avassaladora.


Percebam que o falar sobre algo é sempre um passo importante no processo de cura, já que para cuidar de uma dor é preciso - antes de mais nada - reconhecer sua existência. Assim, na medida que expomos nossas fragilidades surge uma imensidão de diagnósticos, tratamentos e equívocos. Entre profissionais capacitados e pessoas levianas que disseminam falsas informações sobre saúde mental e seus desdobramentos, corremos o risco de nos apegar ao que parece mais cômodo segundo nossa percepção e agravar ou - até mesmo - gerar uma condição não saudável ou positiva.


Há ainda muitos tabus sobre a doença mental, porém é perceptível que nos últimos anos as pessoas têm apresentado mais facilidade para falar sobre o assunto. É importante ressaltar que o cuidado com a saúde, seja em qual esfera for - deve ser realizado de forma ampla e global. Não é possível separar um indivíduo em partes e tratá-lo de forma isolada. Logo, a assistência a pessoa em estado de adoecimento deve ser integral, abarcando cuidados com seu corpo e mente. Se a medicação tem papel importante na cura, o acompanhamento psicológico se faz fundamental, já que a possibilidade de fala dentro de um espaço de escuta qualificada é o primeiro passo para compreensão da dor e formas de cuidado.


No município de Mogi das Cruzes - até o final de 2017 - estimava-se que mil e quatrocentas pessoas estavam à espera de tratamento na área de saúde mental na cidade, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Sabemos que o volume de pessoas que precisam de atendimento é maior do que os equipamentos podem atender. No entanto, é válido ressaltar que há caminhos que podemos percorrer e que podem estar mais acessíveis do que imaginamos.


Infelizmente, na rede SUS ainda não suportamos a alta demanda, o que dificulta o acesso, atendimento e tratamento de quem precisa. Felizmente, podemos contar com alternativas disponíveis na região... Entre elas, temos a Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), que oferece atendimento psicológico gratuito na Clínica de Psicologia e está localizada na Avenida Dr. Cândido Xavier de Almeida de Souza, 200. O mesmo tipo de serviço também é disponibilizado no Centro Educacional Braz Cubas, localizado na Av. Francisco Rodrigues Filho, 1233, basta ir até a unidade e preencher uma ficha de inscrição. Os atendimentos são realizados por estudantes de psicologia supervisionados por seus professores e há uma fila de atendimento, assim é necessário se dirigir até esses locais com seus documentos para que passe por triagem e, posteriormente, atendimento.


Há também, na nossa cidade e em todo o país, o Centro de Valorização da Vida (CVV) que tem como objetivo prevenir suicídios e dar atenção a quem precisa de apoio emocional. O serviço é sigiloso e para acessar basta ligar no 188 ou acessar o site da organização.

Atualmente, a cidade conta com:

● 21 Unidades Básicas de Saúde (2 com P.A. 24h);

● 13 Unidades de Saúde da Família;

● 1 Centro de Atenção Psicossocial - CAPS II;

● 1 Centro de Convivência e Cooperativa – CECCO;

● 1 Ambulatório Municipal de Saúde Mental –

AMSM;

● 2 UPAs 24h;

● 2 Hospitais de Referência: Luzia de Pinho Mello e Arnaldo Pezutti Cavalcanti

O atendimento psicológico acontece em em 7 Unidades de Saúde:

● Vila Suissa

● Jardim Camila

● Ponte Grande

● Jardim Ivete

● Santa Tereza

● Jardim Universo

● Jundiapeba

Cada um dos equipamentos possui objetivo, público alvo e perfil específicos, por isso é importante acessar a unidade básica de saúde do seu bairro - que é a porta de entrada para os demais locais - e compreender como ocorrem os processos. O fluxo de cada um destes equipamentos oscila de acordo com sua população e procura. Para que você encontre o cuidado ideal para seu tipo de problema é importante uma orientação adequada e o encaminhamento médico.


Segundo site da Prefeitura de Mogi das Cruzes, “as psicólogas do Programa de Saúde Mental de Mogi das Cruzes elaboraram cartilhas para oferecer suporte e estratégias terapêuticas de prevenção de transtornos emocionais, com o objetivo de auxiliar pessoas com estresses decorrentes da pandemia e apoio ao luto por perdas e mortes.”


Além das cartilhas, a prefeitura informa que estão sendo produzidos vídeos, contendo práticas interativas e informações para usuários do Centro de Atenção Psicossocial - CAPS Infantil. Outra medida, foi a oferta de atendimento psicológico a moradores de Mogi das Cruzes por meio de WhatsApp e contato telefônico. O atendimento, feito à distância pelas psicólogas do Cecco – Centro de Convivência e Cooperativa, de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h, através do número de telefone (11) 99532-2081, tem como objetivo “atender a população acima de 16 anos que esteja apresentando mudanças de comportamento ou com sinais de angústia ou ansiedade decorrentes da pandemia, ofertando um serviço de acolhimento e orientação psicológica para as pessoas em sofrimento ou dificuldades para lidar com o momento atual”.


Contrário à impressão de todos que recorrem aos serviços na cidade, a prefeitura ressalta em sua página que o Programa de Saúde Mental ampliou o atendimento psicológico em tempos de pandemia, que antes era exclusivo para funcionários da saúde e estendendo para toda população mogiana.

AGORA, temos um problema importante! Todos os atendimentos sofreram alterações devido o contexto que vivemos no momento e muitas estratégias se pautam pela via digital? Será que todos acessamos esses canais?

Sendo assim, a quem recorrer? Visto que a demanda se tornou ainda maior e que tanto as doenças mentais como os conflitos sociais cresceram de forma relevante, o que fazer?

SAÚDE MENTAL X MEDICALIZAÇÃO: Como estamos lidando com a pressão do mundo?

Antes de qualquer coisa, angústias e problemas interiores já eram presentes antes da pandemia, ou seja, você tem um plus de questões em várias dimensões, por isso é, até certo ponto, natural estar confuso e sobrecarregado. Porém, é notável que nossos problemas tomaram, nos últimos meses, uma proporção ainda maior.


O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para uma crescente nos sofrimentos psicológicos atrelados à covid-19 e solicitou a governos, sociedade civil e autoridades de saúde que atendam urgentemente às da população. Guterres apontou para "tristeza pela perda de entes queridos, choque pela perda de empregos, isolamento e restrições de movimento, dinâmica familiar difícil e incerteza e medo pelo futuro" como fatores desencadeadores. O secretário-geral, ainda faz um lembrete importante referente aos profissionais de saúde, idosos, adolescentes, jovens e aqueles com condições de saúde mental preexistentes, além dos envolvidos em conflitos e crises.


Vale lembrar que, mesmo com um olhar atento para essas questões e tratamento, teremos sequelas importantes no período pós-pandemia.


Uma sociedade que já ia mal das pernas, agora fica com mente e corpo comprometidos e presos num esquema de medicalização da doença/problema. Deste modo, se faz necessário, antes de fixar um diagnóstico, o levantamento de algumas questões extremamente importantes. Primeiro, o que é doença? Quando o remédio é necessário? Aliás, o que é remédio pra você? Há tempos buscamos drogas como resposta para nossas angústias e melhora de qualidade de vida. No entanto, essa melhora é questionável, apesar de pipocar aos nossos olhos como solução eficaz e imediata.


Um exemplo disso é a ingestão do Rivotril! Você sabia que seu uso passou de 29 mil caixas em 2007 para 23 milhões em 2015? Vendido mais que qualquer medicação, exceto pelo microvilar (anticoncepcional distribuído pelo SUS), esta droga parece como "queridinha" para muitos de nós. Não só a mais vendida, também é a mais prescrita, talvez por apresentar baixo custo e efeito mais rápido se comparada a medicações equivalentes.


É valido lembrar que esse remédio (como qualquer outro) por si só não resolve o problema de forma total, ele apenas o lança para o dia seguinte, principalmente se seu uso não estiver atrelado a terapia e mudança de hábitos. A prescrição de psicofarmacos pode acontecer, e geralmente ocorre, por médicos de diversas especializações, ou seja, nem sempre são psiquiatras.


Na impotência do consultório e limitação sobre a promoção de saúde na vida do outro, o médico tende a prescrever a medicação. Ainda que o objetivo destes profissionais seja o de ajudar o paciente na sua queixa, não é bem o que ocorre, porém - e infelizmente - o sistema parece não nos dar opção. Nem o paciente, nem o médico parecem encontrar caminhos que se adequem à realidade de um modelo que nos obriga a produção em massa, em excesso, pelo menor tempo e com o custo mais baixo possível.


Mas se não tomar remédio como posso tratar minha condição? Bem, não é um caminho simples, barato ou de fácil acesso para todos como deveria ser, mas poderíamos pensar em: atividade física; terapia; meditação; alimentação saudável; sono regular e lazer.


Agora - o que ninguém fala - é que um fator importante na compreensão da doença mental está para além do indivíduo e suas escolhas. Vivemos num dinamismo nada lógico ou saudável se visto a longo prazo. Trabalhamos com o objetivo de consumir e neste processo doamos nosso tempo e energia para coisas que nos parecem primordiais. Por exemplo, entregamos grande parte dos nossos dias e horas ao trabalho para que possamos encontrar um ou dois dias no mês em que é possível juntar a família, entrar no nosso carro parcelado em anos e pagar caro por um dia no shopping com direito a: comida industrializada e nada saudável; brinquedos altamente tecnológicos com preços abusivos e marketing agressivo; eletrônicos e móveis programados para acabar mais rápido do que os boletos gerados por eles e entretenimento imediato.

Diante deste cenário, você consegue perceber como nossa saúde mental não depende só de nós?

- Claro que há uma parte importante que cabe ao indivíduo e neste ponto podemos cuidar com as possibilidades mencionadas acima -

Faz se necessária e urgente a discussão sobre o modo como compreendemos e buscamos sucesso e felicidade dentro deste modo capitalista e esmagador que nos faz acreditar que nunca temos o suficiente. É preciso relacionar todos os cuidados pós diagnósticos com trabalho preventivo que inclui: consciência, educação, conhecimento e quebra deste modelo desigual que nos faz acreditar que a vida funciona por meritocracia.

NÃO! NÃO FUNCIONA.

Minha breve experiência no consultório me trouxe essa reflexão ainda durante a graduação (o que me fez escolher o caminho da psicologia social e educação). Sempre que um paciente se apresentava com sintomas depressivos e/ou ansiedade logo surgia, através da anamnese: um parceiro alcoolista e violento, um filho com dependência química e/ou problemas escolares, uma moradia insalubre, alguns meses de desemprego, um trabalho exploratório, medo da violência urbana, falta de oportunidades, baixo rendimento escolar, difícil acesso aos serviços de saúde…


Enfim, a lista de fatores externos que se relacionam e que culminam num modelo que prioriza o lucro de alguém é infinito. E quando digo alguém é alguém mesmo, muito específico, que está enriquecendo as custas da nossa saúde física e mental.

DIANTE DESTE CENÁRIO, O QUE PODEMOS FAZER?

Eu não tenho certeza, mas acredito que reconhecer o fato e falar sobre sempre será nosso primeiro passo no processo de cura e transformação.

Fonte:

https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,onu-alerta-para-estresse-e-problemas-psicologicos-causados-pela-pandemia-do-coronavirus,70003302357

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